sábado, 7 de novembro de 2009

MEMORIAL DE LEITURA

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – DIRFE
CENTRO DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DA UNB - CFORM
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA
INSTITUTO ANISIO TEIXEIRA/IAT
PROGRAMA GESTÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR – GESTAR II
FORMADORA ROSA MARIA OLIMPIO /LÍNGUA PORTUGUESA
CURSISTA TÂNIA SANTOS CARÔSO



MEMORIAL DE LEITURA

Tânia Santos Carôso1

Para eu começar a escrever sobre minhas memórias de leitura, é preciso que eu retome a história de minha família. Sou filha de descendente de imigrante italiano e cabocla do sertão nordestino, a sétima criança de uma família numerosa de 15 irmãos, no entanto, somente com doze filhos vivos. Vivi minha infância, nos idos dos anos setenta, na fazenda, Santa Rosa, de meu pai, ou como dissemos no interior,na roça, nos arredores de Jequié. Naquela época, apesar de, na cidade, já existirem os aparelhos de televisão, nós não possuíamos, pois não havia, ainda, na região energia elétrica.
O mundo sem a luz elétrica, somente com as velas, as lamparinas, os lampiões ou as fogueiras no terreiro banhado pela magia das noites claras, enluaradas e estreladas do sertão. Nos bancos improvisados pelos troncos de árvores, as cadeiras com assento de palha, o batente de minha casa, todos eram lugares onde meus pais, meus irmãos e vizinhança se reuniam para conversar, trocar idéias, contar os causos ou mesmo fazer uma reunião com o intuito de ler a Bíblia, visto que minha família era bastante religiosa.
A leitura surgiu em minha vida através dessa oralidade, dessas histórias e experiências contadas pelos meus pais, sobretudo pela minha mãe, e minha Tia Pecília, que na verdade era uma senhora que morava conosco e criamos laços afetivos de tia, duas mulheres que conheciam bem o sertão, as árvores, os animais, as plantas medicinais, os chás enfim toda essa cultura popular tão milagrosa e presente na vida do sertanejo.
As histórias contadas, o vocabulário próprio, as brincadeiras infantis, os costumes e a própria forma de se posicionar diante da vida deram a mim um mundo intensamente fantástico. O imaginário percebido nessas lendas, historietas, fábulas enfim esses emaranhados de textos orais forjaram, sem que eu percebesse, a minha entrada no mundo da escrita. E minha mãe e minha tia como Xerazade terciam , nas minhas noite de criança, histórias que mudaram para sempre minha vida.
Sou fruto dessa cultura popular, mas tive, também, tive a oportunidade de vivenciar, a cultura européia, pelos laços italianos de meu pai. Isso certamente contribui sobremaneira para a minha formação de leitora. Acredito, ainda, que essas influências foram precípuas para a minha escolha profissional: professora de língua portuguesa voltada completa e intensamente para o mundo da leitura.
Atualmente, historiadores, estudiosos da relação da História e da Memória, quando analisam a importância da oralidade na história escrita afirma que:

A experiêcia que se passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se destingem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos.(...) A relação ingênua entre o ouvinte e o narrador é dominada pelo interesse em conversar o que foi narrado. Para o ouvinte imparcial, o importante é assegurar a possibilidade da reprodução. A memoria é a mais épica de todas as faculdades. (ROUANET, Sergio Paulo, 1987)
(antiga escola Castro Alves,minha primeira escola)

Diante desses estudos, podemos refletir o quanto é importante a história oral e a memória na formação da História. E eu e meus irmãos vivenciamos isso, bem de perto, pois foi assim que fomos alfabetizados, na escolinha rural, tendo um paralelo entre o popular e o erudito, ouvindo causos do imaginário popular e os contos dos irmão Grimm, contados pela tia, que nos embalava no seu colo terno e que nos encantava com sua voz de sabedoria.
Embora, eu tivesse vivido uma infância tão rica em histórias, só pude terminar o antigo primário, já bastante grande, pois a fazenda era muito distante, naquela época da escola. Vim morar com meus pais e irmãos em Jequié por causa da necessidade de estudo. Minha mãe, mesmo sendo uma mulher simples, percebia, em sua sabedoria, a necessidade dos filhos estudarem. Então, aprendi a gostar de ler aos 9 anos de idade, o que parece um pouco tarde para os tempos de hoje, todavia não para aquele tempo que corria tudo devagar, sem pressa, como no poema de Drummond:
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar...as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.
(Carlos Drummond)

E assim, já na cidade, sentir falta dos causos, histórias, lendas e fábulas contadas e vividas na minha imaginação de criança, precisava, então, de algo que substituíssem os momentos que nos reuníamos e estávamos juntos na construção da nossa própria história. E nos livros consegui acalmar minha alma infantil em um mundo que já não era mais meu.
E aí, veio o encontro, através do amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, com o Amado Jorge, sua bela Gabriela e com a dura realidade dos Capitães de Areia, com Graciliano Ramos descobri o meu Sertão como personagem de sua obra. Deleitei-me com Drummond e sua doce poesia, a velha Totônia, de José dos Lins do Rego, era a figura de Tia Pecília nos contando as suas histórias fantásticas. Em outras histórias fui personagens: Emília, Narizinho, Chapeuzinho Vermelho, Capitu, Tereza Batista, Macabéa etc...
Em todos livros lidos, todas as histórias contadas, na adolescência , mocidade e até mesmo na vida adulta encontro um pouco da minha história, em outras, isso graças a minha experiência no mundo da leitura e a pessoas tão simples, porém, cheias de sabedoria e encantamento que elevaram minha imaginação infantil a mundos que eu jamais conseguiria ir.
E fui assim, aprendendo, estudando, fazendo minhas escolhas, formando professora do curso primário, atuando nas séries iniciais, ingressando no curso de Letras, na Universidade, cursando uma pós-graduação lato sensu, cursando outra, buscando cada vez mais a minha formação profissional. Desejo ir adiante, sei que a luta é constante, mas os sonhos são os mesmos construídos ainda na infância, na fazenda, indeléveis!

Referências


AMADO, Jorge. Capitôes de Areia. Rio de Janeiro:editora Record,103ª edição,2001
ANDRADE, Carlos Drummond. Poemas. Rio de Janeiro: editora José Olympio,1999, pg:165.
CONY, Carlos Heitor. As melhores histórias das Mil e Uma Noite. Rio de Janeiro: editora Ediouro,2ª edição, 2004.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas,Rio de Janeiro: editora Record, 88ª edição, 2003.
REGO, José Lins do. Histórias da Velha Totônia,editora José Olympio, 11ª edição,1957.
ROUANET,Sergio Paulo, Margia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora,1987 Brasiliense, 1987, pg 198.

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